PANORAMA – CAÇA AO TESOURO

                 peoplemeter

Todo mundo gosta de histórias de pirata. Daquelas em que bravos navegadores indômitos decidem as próprias regras do jogo e partem em busca de lendários tesouros perdidos. E se estes tesouros forem em barras de ouro, melhor. Foras-da-lei a parte, o início deste ano no SBT começou com uma história bastante parecida com esta.

A história que será contada aqui gira em torno dum lendário tesouro contemporâneo que todo ano ajuda a decidir onde bilhões e bilhões de reais de injeção publicitária serão depositados. Através dele, executivos criam, corrigem ou derrubam produtos de grades inteiras de programação televisiva. Através dele, programas de TV ganham etiquetas com seu valor de mercado. Conflitos de telenovelas são escritos. O jornalismo reorganiza sua pauta. Através dele, humoristas ouvem quão altas são as risadas de sua platéia. E tentam ouvir quão além da última fileira, suas piadas podem ir.

O tesouro citado tem nome e pronúncia em inglês. Se chama“peoplemeter”.

Trata-se de um aparelho cedido pela empresa IBOPE que mede a receptividade de um programa de TV.

Há menos de mil deles escondidos por toda grande SP.

peoplemeterfotinhu

As pessoas que aceitam a coleta de informações em seu domicílio recebem valorosos brindes da empresa para ficarem informando a todo instante:

“Qual integrante da família está a frente da TV?”

Em que momento se trocou de canal?”

“Quantos integrantes da família assistem àquele determinado programa?”

O domicílio que recebe o peoplemeter deve ter sigilo no ato. E muito dificilmente consegue se cogitar quem são as famílias que possuem o aparelho acoplado em seu televisor.

No mês de março, o comandante Silvio Santos decidiu se rebelar contra o sistema. Ou tentou simular uma revolta.

A questão é que após perder a vice-liderança, o SBT anunciou em suas chamadas que discordava dos critérios adotados pelo sistema vigente de medição de audiência televisiva.

Nestas chamadas era anunciado um prêmio em dinheiro ao telespectador que denunciasse seu próprio vizinho detentor de um destes lendários aparelhos. O suposto prêmio dado por Silvio já é muito conhecido pela platéia feminina da emissora e já ajudou a solucionar muitos problemas de audiência da casa. Trata-se apenas de mais uma promessa de dinheiro fácil da emissora de Osasco. O SBT, contudo, não especificou nas chamadas se a delação premiada seria recompensada em barras de ouro ou através de “aviãozinhos”.

O ousado e autêntico movimento de revolta não é inédito.

O insurgente Silvio, no início dos anos 2000 já produziu, chamadas onde tentava dissuadir telespectadores e mercado publicitário de que o SBT não recebia o louro que lhe era devido. A insatisfação do apresentador mais carismático da TV brasileira com o IBOPE era tamanha que Silvio Santos entrou pra história do país ao ser o único executivo de emissora que teve coragem de montar seu próprio sistema de audiência. Contou com o auxílio da Nielsen gringa para tal. Cogita-se que seu finado instituto chamado “Datanexus” tenha custado cerca de R$4 milhões, nos seus pouquíssimos meses de vida. Além disso, desconfia-se que os resultados colhidos (apesar de nunca terem vindo a público) serem extremamente similares aos que o Ibope entrega em tempo real desde 1988.

Portanto, naquele contexto culpar a janela pela paisagem pareceu não fazer muito sentido.

O que ainda deixa muita gente com o pé atrás é que o Ibope é rigorosamente sigiloso em seu método de aferição de audiência. A questão chave é: os 750 perfis dos domicílios e famílias escolhidos pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística condizem com a realidade?

Numa conta rápida podemos ter noção de quão assustador é o poder depositado na empresa Ibope.

Na amostragem matemática em que eles traçam o perfil da população paulistana cerca de 750 “peoplemeters” são distribuídos em domicílios de perfis diferenciados entre si.

A população paulistana tem cerca de 11 milhões de pessoas, de acordo com recente estudo do IBGE (de julho de 2012).

Portanto na divisão de cidadãos paulistanos por aparelhos “peoplemeters” disponíveis na cidade o resultado seria de 14 mil e 600 famílias. Ou seja, isto quer dizer grosso modo, que cada domicílio paulistano com “peoplemeter” tem por função representar o hábito de aproximadamente outros catorze mil domicílios.

O raciocínio anterior é claro, foi feito com base nas informações de senso comum que a própria empresa de estatística e também o IBGE disponibilizam. Teriam de se excluir aí todos “telespectadores não potenciais” (espectadores somente do rádio, por exemplo). Mas,

através desta linha de raciocínio podemos ter uma noção básica de como a audiência televisiva é medida na principal praça de publicidade do Brasil.

Por causa desta metodologia que soa obtusa para o cidadão comum, emissoras como Record e SBT que há décadas orbitam ao redor da emissora líder, esporadicamente lançam declarações tentando desmoralizar o instituto de pesquisa.

A rede Globo como se sabe possui uma programação muito mais completa e planejada que a maioria de suas concorrentes. A audiência global, apesar da queda na TV aberta no geral continua espantosa.

Carlos Henrique Schrodes, o diretor geral da rede Globo Carlos em recente entrevista afirmou que a audiência da emissora em um só dia chega a alcançar 96 milhões de pessoas no país. Ou seja, a cada dois dias o alcance é similar ao número da população inteira do Brasil.

Será que a rede Globo estaria mesmo interessada em contestar a metodologia do Ibope?

Os diretores de programação Marcelo Caetano (rede Record), Murilo Fraga (SBT), os apresentadores José Luiz Datena e Carlos Massa (o proprietário da TV Massa, o Ratinho) e os “comandantes” de emissora, Silvio Santos, Honorilton Gonçalves e Edir Macedo endossam um enorme coro de dirigentes da TV aberta que vem criticando ferrenhamente o IBOPE.

marcelo caetano

Cabe lembrar que em setembro passado, Carlos Augusto Montenegro, presidente do instituto IBOPE ao responder um desses críticos, saiu-se com a seguinte frase: “Datena é milionário por causa do Ibope”.

Toda esta discussão levantada se dá quando levamos em consideração somente pesquisas envolvendo emissoras de TV. Não podemos esquecer-nos, sobretudo, das pesquisas Ibope do período eleitoral onde com freqüência oposição e situação desmoralizam o instituto ao verem um desempenho negativo nas pesquisas de intenção de voto.

O fresco caso de Celso Russomano talvez seja o que melhor exemplifique como a pesquisa de opinião pública possa ser interpretada.

Russomano cabe lembrar foi de azarão a surpreendente favorito e depois retornou ao status de “zebra” no final das eleições municipais.

O curioso foi que durante enorme período eleitoral ele permaneceu na liderança das pesquisas de intenção de voto. Ao se aproximar do dia da votação, contudo, Russomano teve uma leve queda. Mas, nada que abalasse a segurança do partido: o candidato do PRB ainda aparecia empatado tecnicamente no primeiro lugar em diversas pesquisas de intenção de voto.

A verdade como se sabe é que Russomano nem ao 2° turno foi.

Porém esta leve queda é que é interessante. Ela talvez seja índice de uma tendência técnica da pesquisa.

E tendências não podem ser interpretadas literalmente, pois generalizações são perigosas e não podem ser interpretadas ao pé da letra. E opinião não é axioma.

Apesar das pesquisas de intenção de voto não utilizarem “peoplemeters” é possível crer que os dois métodos guardem muitas coincidências entre si que vão além daquela de que o objeto de pesquisa compartilhado é o mesmo. A estatística é uma ciência. E a ciência também está passível de exceções.

Nestas últimas semanas apostando na possibilidade desta margem de erro da pesquisa Ibope estar razoavelmente distorcida, Record e SBT se mostraram entusiasmadas com a seguinte sigla: GfK.

As letras dizem respeito ao instituto alemão medidor de audiência já consolidado na europa e que vem tendo conversas fortes para medir audiência também no Brasil.

A missão é dúvida uma vez que o complexo método pra ser colocado em prático é caríssimo (mas, como diz a regra de mercado: “se tem quem pague…”).

O instituto, contudo, já chega carregado de polêmica uma vez que recentemente deixou de medir as audiências na Ucrânia por denúncias de estar manipulando os resultados de audiência.

Em Portugal, a emissora RTP também fez criticas recentes ao instituto acusando-o de não contemplar corretamente os telespectadores mais velhos em sua pesquisa.

É desanimador como as emissoras criticam abertamente o Ibope, e por outro lado não criam nenhuma alternativa interessante de programação.

Silvio Santos ainda possui alguns pontos a favor por ser responsável pela única emissora aberta que não vendeu seu espaço de programação a instituições religiosas.

Porém, fica difícil quando o SBT não trabalha pra criar uma telenovela com um texto mais caprichado ou tentar construir um jornalismo mais ágil. Cabe destacar que a Record já retomou a vice-liderança de audiência em SP com suas quase 14 horas de jornalismo ao vivo e conteúdo inédito. Houveram também algumas mudanças pontuais na sua teledramaturgia. A novela da emissora carioca, antes tida como leve e humorística ganhou fortes ares policiais. Enquanto isso o SBT segue numa competição pessoal recorde.

Recorde de conteúdo reprisado e de conteúdo não direcionado aos adultos.

Parte disto, contudo pode mudar nos próximos meses uma vez que o Ibope surpreendeu  emissoras e público com a informação de que não vai mais considerar o telespectador  mirim (de 4 a 10 anos)

A rede Globo, portanto, se antecipou ao seguir a tendência mundial de restringir  produtos infantis a TV por assinatura e à programação matinal dos fins de semana.

A Record pode ser a maior beneficiada com a medida uma vez que dedica muito pouco de sua programação aos pequenos (“Desenhos Bíblicos” e o coringa da programação “Pica-Pau”). O segundo remake de “Chiquititas” planejada pelo SBT promete ser a sem sombra de dúvida o produto televisivo mais prejudicado com a nova medida. Cabe questionar também como ficará a situação de alguns “coringas” da programação a TV aberta e que possuem forte apelo infantil como “Chaves”, “Todo Mundo Odeia o Chris” e “Pica-pau”.

Sobre este ataque coletivo ao Ibope reitero novamente: não seria o caso da janela estar sendo culpada pela paisagem?

murilo

Como se pode ver a medição de audiência televisiva promete ser um dos assuntos mais polêmicos neste ano. Outros ataques ao Ibope vêm por aí e principalmente por parte dos marinheiros do “pirata Silvio Santos”. O Ibope por outro lado já trabalha com a hipótese real de mensurar audiência móvel (TV assistida em tablets e celulares, por exemplo) nos próximos meses e garante que a margem de erro nesse sistema (através do “peoplemeter” DIB 6) é menor e o detalhamento do perfil do espectador mais completo do que o atual. Não resolve o imbróglio. Mas, já dá uma mão.

Quanto a caça ao tesouro ou a caça ao lendário “peoplemeter” promovida pelo SBT, a emissora hesitou diante da rebelde missão. A hesitação foi uma resposta à notificação emitida pelo Ibope exigindo que o contratante SBT parasse de imediato com a campanha de sabotagem do sistema de audiência. Assim, a emissora respondeu afirmando que tal ação havia sido um equívoco da empresa SBT.

“Ruim com eles. Pior sem eles.” Deve ter pensado o comandante Silvio.

Aliás, alguém mais aqui já considerou o enorme potencial pra pirata atrapalhado que Silvio Santos possui?

silvio

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4 pensamentos sobre “PANORAMA – CAÇA AO TESOURO

  1. Cara, bem legal o post! Só achei meio longo demais, por causa do tamanho acabei só parando para ler hoje, mesmo… sei que é difícil, mas acho que ficaria melhor em posts menores (nem que tivesse que dividir em mais de um 🙂 ).Opinião gratuita, mesmo. Hehehe…

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