PANORAMA – A MALDIÇÃO DOS EX-MTV

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Todo mundo sabe que com o fim da era dos videoclipes televisionados a MTV teve de se reorganizar. No ano passado, por exemplo, a marca “Music Television”  viu o “Multishow” ultrapassá-la como a principal emissora musical do país, em quantidade de conteúdo musical. Com a indústria musical redirecionando seu conteúdo audiovisual para a internet, a rede aqui no Brasil se reinventou passando a apostar no humor.   

Livre de amarras como a pressão por audiência, seus programas de humor logo se mostraram criativos e com boa repercussão:

O termo “Joselito” extraído do “Hermes e Renato”  virou gíria nas rodas de conversa. Trechos do  “Piores Clipes do Mundo”  foram exibidos na MTV gringa além do programa ter sido mencionado pela revista “Time”. “Comédia MTV”   e o seu maestro Marcelo Adnet foram reconhecidos respectivamente como o melhor humorista brasileiro e o melhor programa de humor do país (pelo prêmio APCA nos anos de 2010 e 2012).

Esta renovação mantendo acima de tudo, o jovem como público-alvo portanto, se mostrou um acerto desta renovação pela qual a marca vem passando.

E assim como a MTV, o humor televisivo nacional também está em uma fase de renovação e de busca por novos rostos.

Didi Mocó, Dedé Santana, Hélio de La Peña e Cláudio Manoel são alguns dos nomes representantes dum humor mais classudo, tradicional e até inocente e que hoje perdeu força na indústria do entretenimento.

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Este tipo de humor foi encolhendo a medida que crescia a pretensão do humor político do “CQC” e crescia a malícia da turma do “Pânico”.

O filão do humor na TV aberta fica ainda maior se citarmos o cancelamento de produções como “Os Caras de Pau” e do precoce, mas, cheio de boas intenções “Saturday Night Live Brasil”.

É delicada ainda a situação do humor na rede Globo: apesar da ótima audiência desde o fim da série “Os Normais” (em 2003) a emissora nunca mais emplacou nada de impacto no gênero.

A indústria do humor precisa mais do que nunca criar novos ícones.

O “Porta dos Fundos” que surpreendeu no último APCA como a primeira produção da internet a levar o prêmio de melhor programa de humor soa bastante promissor neste sentido.  O empecilho contudo, continua sendo a penetração ainda muito pequena pensando em audiência televisa.

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“Comédia MTV” portanto, talvez tenha sido o que mais se aproximou de preencher esta iconoclastia ausente no humor do país.

E que mais tenha chegado perto de catapultar novos rostos ao “Olimpo” dos grandes humoristas da história do gênero. Faltou audiência pra isto, é claro.

Foi de uma lucidez ímpar na TV brasileira a esquete em que o programa homenageou o teor contestador de “Roda Viva” do Chico Buarque.

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A paródia “Indiretas Já”  disparou a torto e a direito sobre inúmeros problemas da indústria televisiva do país como a linha editorial da rede Globo na eleição Lula x Collor (“Plim Plim coloriu 89 editou para não ver Lulalá”), usou a Sônia Abrão pra criticar o sensacionalismo da TV brasileira (“A Tarde é Suja de Sangue”) e se aproveitou das madrugadas da rede Record para criticar todo o loteamento religioso em que se tornou a programação televisiva brasileira (“Pastor só sai de madrugada. Rebanho não pode enxergar”).

A mistura do sofisticado com o popularesco na “Gaiola das Cabeçudas” que trazia diversos nomes de intelectuais ao som do funk e também a agilidade em parodiar o viral “Para Nossa Alegria” são outros dos grandes momentos do programa.

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São esquetes como essas que consagraram o “Comédia MTV” como o melhor programa do humor da TV brasileira nos últimos anos.

Contudo, recentemente a repercussão da emissora esteve atrelada mais aos nomes dos seus humoristas do que aos nomes de suas produções. A espontaneidade, a linguagem jovial e o roteiro despretensioso da MTV caíram como uma luva para alguns de seus humoristas.

Neste contexto Marcelo Adnet, Dani Calabresa e Tatá Werneck foram os que tiveram maior destaque, chegando até a ofuscar os próprios programas de quais fizeram parte.

É quase como se estes nomes fossem maiores que as próprias produções que estrelavam, fazendo crescer o olho dos outros canais em cima de seu trabalho. E os humoristas, mesmo sem saberem já carregavam um certo estigma em suas carreiras. Um estigma que ainda não abandonou diversos nomes de artistas vinculados a franquia brasileira: a maldição dos ex-MTV.

Um fenômeno que parece azarar inúmeros nomes daqueles que um dia já deixaram sua marca na pequena emissora.

E este ano seria um ano importante para o sobrenatural desenrolar da tal maldição.

Calabresa, Tatá e Adnet, os maiores nomes da casa, estão fora do canal e partiram em direção aos projetos de outras emissoras.

“É natural, já convivemos com isso aqui há muito tempo. A MTV é o canal que mais exporta talentos, as emissoras estão sempre tentando tirar gente daqui.”  Disse Zico Góes, diretor de programação da MTV sobre a saída dos humoristas.

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Não me recordo de um ano em que os olhos do público estiveram tão voltados para ex-rebentos da MTV. Talvez toda esta expectativa se deva por razões que vão além de toda renovação na MTV. Talvez esta busca por renovação hoje esteja se instalando por todo meio televisivo.

Dani Calabresa rumou para a Band, a emissora aberta hoje que mais se dedica ao gênero humor. Mas, mesmo levando para a nova casa, o colega que lhe pautava no “Furo MTV”, (o roteirista Pedro HMC) a humorista ainda não encontrou o tom.

O ponto é que Calabresa não conseguiu que suas piadas soem orgânicas neste humor mais sisudo do CQC. Perdeu um pouco da espontaneidade que era uma de suas marcas. O ponto forte, porém continua sendo suas caricaturas de personalidades e de famosos.

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Já Tatá Werneck e Marcelo Adnet estão no mesmo barco.

Populares entre a pequena turma de descolados da MTV, agora os dois se vêem na pressão por conquistar o maior número de turmas possíveis.

A mudança foi quase da água pro vinho: foram de uma emissora brasileira UHF de audiência traço para a maior rede de TV da América Latina.

Saem de cena os jovens telespectadores elitizados da MTV e entram em foco os telespectadores das mais variadas idades, hábitos e classes sociais.

E é nessa busca pelo mainstrem que mora a interrogação.

Marcelo Adnet estreou recentemente na rede Globo, como o protagonista de “O Dentista Mascarado”.  Contudo, o  comediante não teve muita graça: seu personagem teve um texto fraco e sem maiores sacadas. A boa audiência da estréia (17 pontos contra 15 da reestréia do “Casseta e Planeta” no ano passado), contudo, é animadora, uma vez que esta talvez seja a maior preocupação inicial que envolva um “ex-MTV”.

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Fazendo o resgate da história televisiva recente, muitos “ex-MTV’s” falharam nesta missão de tentar ampliar o seu discurso para angariar audiência.

E o nome de Cazé Peçanha talvez possa rememorar um pouco do pretensioso caminho em que Tatá e Adnet estão se metendo.

O percurso de Cazé foi semelhante ao deles: de figura por anos protagonista duma emissora de audiência pequena à coadjuvante na maior emissora do país.

Após ser contratado pela rede Globo em 1999, o apresentador estreou na rede Globo o dominical “Sociedade Anônima” em 2001. Após amargar o segundo lugar por diversas vezes para a concorrência ferrenha do apresentador Silvio Santos o “ex-MTV” foi para a temida geladeira da rede Globo.

Toda repercussão juntos aos jovens que tinha Cazé não foi suficiente para a irreverência do dono do SBT. E nem mesmo a buzina que Cazé espertamente “sampleou” do “Chacrinha”.

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A amaldiçoada conta dos “ex-MTV” que não prosperaram também inclui Daniela Cicarelli.

Depois de repercutir entre os jovens com o “Beija Sapo” na MTV, até meados de 2007  a apresentadora passou a ser contratada da rede Bandeirantes.

Desde então apresentou “games shows” com baixa resposta em audiência como o“Quem Pode Mais” com uma batida guerra dos sexos como mote  e o dominical “Zero Bala” com um patrocínio inovador da Volkswagen.

Esta 2ª tentativa até parecia um caminho interessante. O programa teve publicitários envolvidos em sua criação onde o briefing era a divulgação do lançamento do novo Fox, ainda em 2009. A idéia era trocar o carro usado do participante pelo produto lançamento da Volksvagen. Sendo exibido no dia de maior concorrência da TV brasileira, o dominical mesmo com a aparente e imediata resposta comercial traçou em audiência e “congelou” Cicarelli na geladeira da TV aberta por anos.

E este tempo afastada da TV parece também não ter sido um período de renovação. Após um breve retorno morno para a MTV (no batido “Provão MTV”) Cicarelli novamente se mostrou uma aposta equivocada da TV aberta, desta vez da rede Record.

Pelo que apresentou até aqui na no “Got Talent Brasil” Cicarelli foi de longe uma das juradas mais apagadas e óbvias na história dos programas do gênero no Brasil.

Talvez sem a língua ferina duma madrasta como contraponto, seja improvável a apresentadora um dia repetir o bom desempenho que certa vez demonstrou a frente do leve “Beija Sapo”.

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(“PÉÉÉÉÉÉÉSSIMO!”, diria a madrasta do “Beija Sapo” sobre o desempenho da donzela Cicarelli)

Maldições e madrastas a parte, se acrescentássemos neste assunto os nomes de “Hermes e Renato” e “Marcos Mion” teríamos de criar um novo termo para todos apresentadores da MTV já citados até aqui.

Os “Ex-ex-MTV”.

E o chavão “o bom filho a casa torna” cai com uma luva para explicar o neologismo.

Seriam aqueles rebentos da emissora que saem do canal aventurados para depois retornarem com o rabo entre as pernas. Nele, após tropeçarem na busca pelo grande público os ex-MTV retornam para a fiel turma de descolados que os consagrou.

E além de Cazé e Cicarelli, o grupo “Hermes e Renato” foi um desses.

Migrou para a rede Record em 2009, como parte do pretensioso projeto entitulado “Legendários”.

O programa que ainda em seu início enfrentou problemas de identidade: tentou “viralizar” dancinhas que são uma das maiores marcas da turma do “Pânico” e ao mesmo tempo arranhou uma proposta cultural através de entrevistas mais jornalísticas, o que soou como uma tentativa de se aproximar do formato do “CQC”.

Colega de programa dos ex-MTV Marcos Mion, Felipe Solari e João Gordo, o grupo então passou a se chamar “Banana Mecânica” e praticamente mudou de identidade. Abandonou seus palavrões, a paródia de banda de metal “Massacration” e abandonou seu personagem mais popular o “Joselito”.

Como o programa possui uma morna repercussão entre os jovens, até pelo dia e horário de exibição (sábado à noite) os humoristas não encontraram espaço para tentar emplacar suas esquetes mais lights.

Neste ano o grupo anunciou  que retorna a MTV, canal que sabiamente os aceitou até para preencher uma lacuna de humor deixada pela debandada dos principais humoristas da emissora.

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Nesta conta dos “ex-ex-MTV” pode se acrescentar também Marcos Mion que chegou a sair duas vezes da emissora: uma em 2001 e outra em 2009.

O retorno dele à emissora talvez tenha sido um marco para “maldição dos ex-MTV” (ou em seu caso dos “Ex-ex-MTV”, como o leitor preferir):

Após ser processado pela MTV, Mion  pediu para retornar ao canal, que acabou o recontratando em 2004, mesmo movendo uma ação judicial contra o apresentador.

Mion foi processado junto a Band pela acusação de terem plagiado a idéia de “Os Piores Clipes do Mundo” no programa “SobControle” , produzido pela Bandeirantes.

Além do processo Mion também destoa entre os “Ex-MTV”(ou “Ex-ex-MTV”) por ter sido um dos que melhor se deu bem após a saída da emissora.

Apesar da repercussão baixa se comparado ao “CQC” e ao “Pânico,” o “Legendários” se mantém há três anos como vice-líder isolado em audiência, fechando médias mensais e semestrais na frente das concorrentes (exceto pela rede Globo). Já o “Pânico” e o “CQC” são com freqüência se mantém no 4° lugar de audiência.

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Se citarmos os nomes das “ex-MTV” Astrid Fontenelle e Fernanda Lima, o placar fica menor para a tal maldição.

Astrid após algum tempo fazendo fofoca vespertina na Band, passou em 2011 a apresentar um dos programas mais elogiados da TV paga o “Chegadas e Partidas” do GNT, tendo recebido o prêmio APCA de melhor programa da TV já em seu ano de estreia. E ainda neste ano a apresentadora estreou a frente do prestigiado “Saia Justa” do GNT.

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Depois de confusas experiências como atriz e agora a frente do descolado “Amor & Sexo” a “ex-MTV” Fernanda Lima também parece ter finalmente se encontrado.

A produção global vai neste ano para sua 7ª temporada.

fernanda lima

E é neste resgate de ex-MTVs que deram certo que eu retorno ao assunto “Tatá Werneck”.

Em toda história dos “ex-MTV” a aposta de Tatá talvez tenha sido a mais pretensiosa: aceitou logo de cara ser uma das figuras chaves do principal produto televisivo do país.

A atriz e comediante estréia no mês que vem (final de maio), no núcleo de humor da próxima novela das nove da rede Globo.

O papel é de Valdirene: uma periguete evangélica de fazer inveja a Deborah Secco e suas personagens das novelas de Gilberto Braga.

O enorme passo que Tatá deu, parece sim ser maior que seus 1,52 cm de altura.

Mas, creio que só pareçam.

Tatá estréia sob o texto de Walcyr Carrasco que como novelista sempre é conhecido por possuir uma ótima sensibilidade para o humor, o que pode contar pontos para o destaque da“ex-MTV”.

Outros pontos que podem contar a favor da periguete evangélica de Tatá:

A vontade que a atriz revelou ter em fazer novela (que soa até incomum vinda de um humorista), o timing da atriz para o humor e a repercussão que os evangélicos vêm tendo cada vez mais na mídia (com o considerável crescimento da religião nos últimos anos).

Portanto, são enormes as chances de este ser o maior trabalho de sua carreira.

tata

Bem. Este é o atual cenário da tal maldição.

Esta balela sobrenatural ainda é uma pequena ameaça a Dani Calabresa e Adnet que ainda não conseguiram se desvencilhar dos textos inapropriados em que se meteram.

Algo que eles podem tirar de letra se conseguirem espaço mostrar sua versatilidade para imitações e também sua afinidade com textos mais livres para improvisações.

Talvez eles demorem um enorme tempo até se encontrarem. Ou talvez não se encontrem logo de primeira.

A verdade é que existe uma pequena emissora paulista que estará sempre com as portas abertas caso eles queiram voltar para aquela pequena turma que os consagrou. A torcida para que novos ícones do humor cheguem logo, já é grande.

comediamtv

 

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