PANORAMA – A MIDIALOGIA NO FILME “CANTANDO NA CHUVA”

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Dignidade. Sempre manter a dignidade.

A frase acima ilustra o pensamento de Dan Lockwood, um dos personagens mais cultuados das mídias de massa. Com o advento do cinema falado o personagem que é uma estrela do cinema mudo percebeu que começava a ser deixado de lado. No mesmo momento em que Hollywood aprendia a falar o cinema mudo começa a perder sua voz como mídia social. Peço ao leitor que aguarde um instante, pois logo abaixo a apresentação do filme e de seus personagens será devidamente feita. Vamos nos concentrar por enquanto no equipamento condutor desta mudança de mídias da qual estamos discutindo:

A voz. O mais sedutor equipamento da mídia primária teve historicamente um papel fundamental na gênese e na reorganização da industrial da comunicação de massa.

A partir da consolidação da voz humana na majestade da comunicação social, a palavra escrita do jornal impresso ainda manteve-se com sua vital importância literária e cultural, mas, acabou tendo de se contentar como uma coadjuvante de luxo no cenário midiático.

No fim do século XIX e no caminhar do século XX, o rádio, a televisão e o cinema passaram a funcionar como verdadeiros extensores máximos desta que é a mais envolvente forma humana de comunicação: a voz. E nosso objeto de estudo é justamente um recorte histórico de como a voz transformou o grande écran do cinema.

A contextualização da voz no cinema veio a partir das décadas de 40 e 50, quando o cinema passou a abranger a sedutora palavra falada do rádio e da televisão.

A mensagem vocalizada ganhou forma mesmo no primeiro filme musical da história do cinema em 1927 com o filme “O Cantor de Jazz” (The Jazz Singer) que foi o primeiro longa-metragem com falas e com canto na história da comunicação em sociedade.

O filme inaugurou ao mesmo tempo o cinema cantado e o cinema falado. Na realidade o canto e a voz até já haviam marcado presença nas projeções cinematográficas, porém,  anteriormente atores e atrizes cantavam escondidos atrás da tela dublando os seus personagens da mesma forma que o pianista e outros instrumentistas ficavam a frente da tela, unidos para uma execução musical ao vivo enquanto a projeção dos primeiros curtas metragens seguia. Portanto, o filme The Jazz Singer detém o mérito de ter sido a primeira produção cinematográfica a ter uma gravação elétrica da voz humana em sua estrutura narrativa (através de um antigo sistema de gravação chamado Vitaphone).

No momento em que “Hollywood” aprende a falar, a empresa Warner que estava à beira da falência consegue sair da crise com a voz do seu“O Cantor de Jazz” e dá início a uma nova (e também crítica) fase na indústria do cinema, onde estúdios, distribuidoras, produtores, salas de exibição e artistas passam a ver a necessidade de se adaptar a esta nova demanda do mercado. Como toda mudança profunda nas engrenagens de uma indústria, o mercado cinematográfico começa a focar na nova demanda apresentada (os filmes “talkie) e aos poucos vai ignorando a antiga estrutura de negócio. Assim, muitos investidores perdem dinheiro e muitos trabalhadores perdem seus empregos. Na mesma década inclusive, os cineastas Chaplin e Eisestein posicionaram-se contra a implementação do som na linguagem cinematográfica com medo que esta passasse a ficar mais literal e relaxada.

A verdade é que a introdução do som no cinema redimensionou a forma de contar histórias do homem e ainda nos seus primeiros anos impulsionou um enorme salto financeiro no mercado cinematográfico.

Vinte e cinco anos depois, com o som de um cantarolado e de um sapateado, a humanidade poderia ver o apogeu do cinema falado. E o filme em questão foi “Cantando na Chuva” (1952) que até hoje é referência no uso do som no cinema.

A sequência que dá título ao filme e uma das mais antológicas da história do cinema funciona como uma perfeita metáfora daquele momento da indústria do cinema:

mesmo com a adversidade o protagonista se colocava a rodopiar, sapatear e cantar na chuva pois em suas próprias palavras “ele estava feliz novamente”.

Na história do filme o protagonista cantava, pois passou a vislumbrar um futuro de sucesso no cinema falado junto da mulher que amava. Da mesma forma é como se a indústria de Hollywood pudesse voltar a acreditar num happy ending. Mesmo com a chuva torrencial da crise financeira mundial que explodiria no fim da década de 20 e na década de 30. Afinal de contas toda chuva é passageira.

Toda construção sonora da sequência foi um perfeito casamento entre as notas, sons e efeitos envolvendo música e os barulhos naturais da chuva.

A perfeita sinergia entre a melodia musical construída com o grave ressoar dos trovões, a constância dos sons dos pingos d’água caindo e tudo isso unido a uma melodia orquestral cantada pelo one man show (no âmago do termo) Gene Kelly são a composição de uma das vívidas paisagens sonoras que o audiovisual já registrou.

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A sequência-título do filme fez tanto sucesso que dezenas de outras produções fizeram referências ao antológico momento do protagonista dançando e cantando sob a chuva.

A primeira referência mais memorável é a do diretor Stanley Kubrick na produção Laranja Mecânica (1951) onde o anti-herói da história Alex cantarola e dança a música durante uma cena em que violentava um casal.

O seriado mexicano “Chapolin” muito famoso na américa latina e cultuado aqui no Brasil pelo fato de ser estrelado e produzido por Roberto Bolaños (o ator protagonista de Chaves) também homenageou o filme em um episódio chamado “O Show Deve Continuar” exibido em 1978.

Em 2002 o desenho animado Os Simpsons também reproduziu a clássica sequência com o personagem Zelador Willie dançando durante uma chuva ácida em Springfield por conta do crescimento da poluição na cidade.

Mais recentemente o filme Robôs (2005) da Dreamworks também fez sua paródia do filme assim como o seriado gringo Glee que promoveu um mash-up de Singing In The Rain com a canção Umbrella da cantora pop Rihanna.

O hibridismo no formato do filme que abrangeu a linguagem da interpretação, o balé, o sapateado, a dança e o canto, acabou catapultando “Singing in The Rain” à antologia de maior musical da história da humanidade.

Pois, se tecnicamente o som é uma vibração que se propaga num meio elástico nada mais coerente que exibir os passos de dança vibrantes e flexíveis apresentados acrobaticamente pelos atores e dançarinos Gene Kelly, Donald O’ Connor e Debbie Reynolds. Portanto, o audiovisual, linguagem fagocitante em sua essência, testou seus próprios limites desta vez incorporando o canto e a dança no grande écran do cinema.

O filme é uma produção de 1952, estrelada justamente por um dos maiores dançarinos do cinema, o ator Gene Kelly que na historiar revisita justamente o período onde a indústria do cinema passou a ganhar a voz. E o ator nada mais é quem dirige a produção em uma parceria com o diretor Stanley Donen, repetindo a “dobradinha” do filme Um Dia Em Nova Iorque” (1949).

O roteiro fica por conta de Betty Comdem e Adolph Green dupla que roteirizou também “Dançando nas Nuvens”(1955), outro musical estrelado por Gene Kelly.

Na história Dan Lockwood (o personagem de Gene Kelly) é um artista do cinema mudo que percebe que o futuro de sua carreira está nos filmes falados e transforma um projeto pessoal em uma adaptação musical para o cinema.

Porém ao escalar Lina Lamont, uma estrela do cinema mudo para o filme, ele percebe a voz estridente e alguns vícios na fala da atriz não a tornam muito adequada a esta nova linguagem talkie (falada).

Um dos tantos encantos de “Cantando na Chuva” é que além de sintetizar canto, dança e interpretação numa só linguagem cinematográfica, também utilizou a metalinguagem para construir sua narrativa.

A equipe de produção usou a própria transição do cinema mudo para o cinema falado de duas décadas anteriores e assim criou uma comédia romântica musical sobre atores que perderam sua importância com a transição na linguagem. É a linguagem do cinema dentro da própria linguagem cinematográfica. Outros filmes como “Crepúsculo Dos Deuses” (1950) e mais recentemente “O Artista” (2011) falaram sobre a crise da indústria do cinema mudo no final dos anos vinte.

E “Crepúsculo Dos Deuses” ainda investiu pesado na metalinguagem: colocou estrelas dos filmes mudos para interpretarem a si próprias numa história sobre o ostracismo com o qual os astros deste cinema tiveram que lidar.

Mais recentemente a indústria de Hollywood revisitou o período de transição do cinema mudo para os filmes talkies na badalada produção “O Artista” do ano de 2011.

A nostálgica história nada mais é que a trama de um artista do cinema mudo que passa a ser ignorado pela indústria após a chegada do cinema falado. O conflito do personagem do filme George Valentim é quase que um remake dos problemas de Norma Desmond (protagonista de “Crepúsculo dos Deuses”) e Lina Lamont (personagem de “Cantando Na Chuva”) que em seus respectivos filmes tiveram de se conformar em abandonar o status de divas do cinema.

E o filme “O Artista” caiu como uma luva nos prêmios Oscar. Muito diferentemente do seu antigo primo “Cantando na Chuva”, esta atual produção conquistou os especialistas e executivos da indústria do cinema ganhando cinco estatuetas douradas no Oscar 2012, consagrando-se como o principal filme daquela premiação.

E a glória veio justamente no ano em que “Cantando na Chuva” comemorava seu aniversário de 60 anos.

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas que havia ignorado o maior musical da história do cinema, sessenta anos depois premia uma trama similar como o melhor filme do seu ano.

Mea culpa da indústria?

Até poderia ser. Mas, o fato de que a indústria do cinema norte-americano vive uma crise criativa só levanta suspeitas sobre a badalação em torno de “O Artista”.

Esta crise que já vem há alguns anos tem apelado cada vez mais para remakes, reboots, remasterizações, releituras, sequências e prelúdios cinematográficos enquanto a TV  vem se firmando com melhores roteiros através de seus seriados. Não à toa inúmeros diretores e profissionais de cinema consagrados como Steven Spielberg, Allan Ball e Martin Scorcese assinaram produções televisivas nos últimos anos.

O fato de o americano ter disponível na tela de sua televisão histórias muito melhor dirigidas e contadas do que os da sala de cinema são um dos pontos que vem redimensionando a indústria do audiovisual no mundo. Neste contexto a indústria consagrar filmes auto-referenciais como o “O Artista” poderia ser lida da seguinte forma: “Olha pelo o quê nossa indústria já passou. Porque vocês não voltam a cultuar nossos filmes?”

A verdade é que a realidade midiática de hoje em dia é cada vez mais plural.

Grandes mídias como o jornal impresso, o rádio, a televisão e o cinema, que de certa forma até competiram e ainda competem entre si pela atenção do público vem começando a sentir o potencial da internet.

Se o cinema americano começou a dividir a atenção com a televisão agora são as duas mídias que começam a dividir a atenção com a produção audiovisual da internet.

Estes novos meios de consumo do audiovisual como Youtube, Netflix e TV on line são como um eco dos Vitaphones apresentados na indústria do cinema mudo na década de 20.

Pense na audiência em bilheteria que o último musical do Baz Luhrman deverá ter ao encerrar sua passagem pelos cinemas ao redor do mundo. Cinqüenta milhões de ingressos? Cem milhões?

Existe um recente musical cômico que redimensionou a análise de audiência nos meios de comunicação. Que atualmente ultrapassou a marca de um bilhão e 500 milhões de visualizações. Afinal de contas qual mídia hoje em dia possui um alcance desta magnitude?

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O fenômeno Gangnam Style seria como um primo direto dos musicais das décadas de 50 e 60. Com efeitos especiais hollywoodianos, uma melodia pop pegajosa, a audiência recorde e com uma coreografia executada por dezenas de dançarinos o clipe do cantor Psy rememora de certa forma a era de ouro dos musicais onde o cinema reinava absoluto como a mídia mais cultuada pelo homem.

A analogia acima tenta levantar a discussão sobre a pulverização da audiência do século XXI. Se a voz no cinema foi a condutora das mudanças no início do século passado, a mobilidade da internet, e a possibilidade da socialização através de uma rede virtual são alguns dos principais fatores que vem criando um verdadeiro mosaico de vozes nas mídias contemporâneas.

E a crise com a chegada do Vitaphone das décadas de 20 e 30 vem de certa forma sendo repetida pelo advento de novas tecnologias como downloads, sites de armazenamentos de vídeos (Youtube) e os serviços de vídeos sob demanda (Netflix). Isso sem falar é claro no maior investimento que a teledramaturgia da TV paga vem recebendo.

Orçamentos milionários na TV aberta vem sendo revisados e cada vez mais o meio audiovisual vem descentralizando seus investimentos até então dirigidos ao cinema e a televisão. Com o enfraquecimento da TV aberta, pessoas já estão perdendo seus empregos e empresas já estão se reorganizando diante destas novas demandas do mercado e diante de um novo público alvo.

Podemos comparar, por exemplo, a recente crise da TV Record com os tropeços da indústria do cinema na passagem das mídias do cinema mudo para o cinema falado.

A emissora paulista sempre contou com um orçamento altíssimo se comparada às suas concorrentes diretas como as emissoras Band e SBT. Porém recentemente ao ver a audiência de suas novelas e de sua programação minguar reorganizou seu orçamento geral, provocando centenas de demissões no mercado do audiovisual e demitindo estrelas da casa como Tom Cavalcante, Ana Paula Padrão e o apresentador Gugu Liberato. Não deixa de ser um crepúsculo dos astros do canal.

Aliás, Gugu viveu uma crise de identidade que pode ser comparada a da personagem Lina Lamont de “Cantando na Chuva”.

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Na história de “Cantando na Chuva” Dan Lockwood (Gene Kelly) escala a estrela do cinema mudo Lina Lamont (Jean Hagen) para um projeto musical de cinema falado, mas logo percebe que a voz estridente e os vícios de linguagem da megera não têm nenhum potencial para o sucesso nesta nova linguagem.

Para resolver o problema eles chamam a namorada de Dan, a aspirante a atriz e bailarina Kathy Selden (Debbie Reynolds) para dublar a famosa estrela. Quando o projeto estréia no cinema e se torna um sucesso a atriz Lina recusa-se a permitir que a verdade sobre a dublagem venha à tona. A foto em questão é a do fim do filme onde a megera Lina era dublada ao vivo pela mocinha da história, Kathy.

Já a foto a esquerda é um retrato recente de Gugu Liberato meses antes de romper o seu contrato com a TV Record. Enfrentando forte concorrência em seu horário (principalmente por causa da audiência jovem que preferia assistir ao programa da Eliana no SBT) o apresentador passou a apelar descamisado para fotos no aplicativo instagram. Isto sem contar um beijo nonsense na apresentadora Adriane Galisteu e a exploração maciça de um nanismo de um anão. A informação que correu é que os executivos haviam pautado o apresentador para criar polêmicas com o objetivo repercutir na mídia.

E o fim da história todo mundo sabe: assim como a megera ficcional Lina Lamont acaba perdendo seu protagonismo na nova era do cinema, Gugu e TV Record acabaram rompendo um altíssimo contrato no valor três milhões de reais como salário mensal ao apresentador.

O rompimento é somente uma parcela de dezenas demissões que o meio audiovisual promete para este tempos.

A nós comunicólogos que veremos as pautas do jornalismo e os briefings publicitários

mudarem bruscamente sua forma e o conteúdo só nos resta seguir a máxima do protagonista do maior musical da história do cinema. Afinal de contas, o espírito atual nessa atual reorganização midiática é o mesmo profetizado pelo personagem Dan Lockwood em “Cantando na Chuva” em 1952: “Dignidade. Sempre manter a dignidade.”

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