PANORAMA – O GRANDE IRMÃO

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Em 1949 o escritor e jornalista britânico, George Orwell, publicou um livro que se tornaria um dos mais importantes e icônicos do século XX sob o título de 1984. O livro logo se tornou uma referência quando o assunto é o totalitarismo político e as mazelas decorrentes do mesmo. Eric Arthur Blair (o verdadeiro nome de Orwell) narrou a história de Winston Smith, habitante da fictícia Oceânia, um dos blocos políticos resultantes de uma guerra de proporções mundiais análoga àquela de 1939-45 (vocês sabem de qual estou falando) só que com algumas bombas a mais. A sociedade descrita no livro é dividida em castas: na base da pirâmide está a Prole, numeroso grupo, porém sem nenhuma participação política e nenhum direito, os membros desta não-casta são deixados para viver suas miseráveis vidas da forma que conseguirem, sem direitos comuns aos membros do Partido. Winston faz parte da casta do meio, a massa controlada pelo Partido, que por sua vez, é comandada pelos membros do Partido Interno, responsáveis pelas decisões políticas e aqueles que ficam com a maior fatia de qualquer bolo que ainda exista neste mundo distópico.

Em tom profético, Orwell nos conduz por um mundo onde não existe privacidade, os membros do partido são constantemente vigiados por teletelas que monitoram todos os seus movimentos desde o momento em que acordam até quando vão se deitar, repetindo constantemente o slogan “The Big Brother watches you” (entendeu agora porque Tina, Solange e Diego Alemão não são seus bróders?). Também não há livre pensamento, o partido controla até mesmo o idioma que as pessoas utilizam: na Novilíngua toda palavra considerada transgressora é cortada, até mesmo palavras como “ruim” são limadas, pois se não há como expressar descontentamento, logo, qualquer pensamento reformador é assassinado antes mesmo de nascer.  Qualquer compartilhamento de informações além daquelas repassadas pelo governo também é proibido e aquele que tenta ultrapassar essa barreira paga com a vida.

Mas por que falar tanto desse livro escrito há mais de 60 anos? Justamente porque tem tudo a ver com a situação pela qual o Brasil está passando hoje.

Enquanto no livro as informações são controladas pelo Ministério da Verdade e pelas Teletelas, nós aqui temos a Grande Mídia para fazer esse trabalho. Porém na situação política do Brasil existe atualmente uma impetuosa mídia menor que vem deturpando qual é essa verdade imposta pelos grandes portais de comunicação…para quem não tem memória curta, vamos aos fatos:

Os protestos contra o aumento da tarifa começaram em São Paulo tiveram início na primeira semana de Junho e logo depois dos confrontos entre manifestantes e polícia a máquina midiática começou a trabalhar incansavelmente. Enquanto as redes sociais eram tomadas por uma opinião favorável aos protestos, a grande mídia taxou os manifestantes como vândalos e baderneiros e assim as emissoras de TV e jornais de grande circulação procuravam virar a opinião pública contra os protestos mostrando o “drama” das pessoas que estavam presas dentro de carros parados no trânsito prejudicado pelas manifestações. Nesse sentido, qualquer vidraça quebrada era tratada como destruição de patrimônio histórico.

José Luís Datena chegou a criar uma enquete perguntando se o telespectador era a favor dos protestos e quando o número dos que concordavam cresceu, ele tentou reverter o quadro pedindo para a produção do programa alterar a pergunta para “Você é a favor de protesto com baderna?”, quando perceberam que o número dos apoiadores ainda era maior, a enquete foi tirada do ar.  Arnaldo Jabor nos presenteou com todo a sua sensibilidade elitista ao afirmar que os filhos da classe média estavam causando todo essa alvoroço por míseros vinténs, enquanto os pobres de verdade eram prejudicados pelos protestos.

A Folha de São Paulo justificou a ação truculenta da polícia, que fez uso de spray de pimenta e bombas de efeito moral para dispersar os manifestantes enquanto carros de imprensa eram queimados ao vivo perfeitamente enquadrados para dar um ar mais dramático à coisa toda.

Mas, de repente, tudo mudou, a imprensa que antes atiçava os cães contra os manifestantes passou a chama-los de defensores dos direitos do povo brasileiro e os protestos, antes criticados por atrapalhar o trânsito e fechar shoppings, viraram a principal pauta dos jornais que faziam questão de apontar seu caráter pacifista. A grande mídia enfim, passou a compartilhar das opiniões dos usuários do Facebook e dos tuiteiros.  A grande mídia abraçou as opiniões de cento e oitenta caracteres. Assim como ocorreu  revoluções recentemente orquestradas pelas redes sociais em motins populares de países do Oriente Médio.

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De repente, a imagem da jornalista da Folha atingida por uma bala de borracha no olho, atirada pela polícia, que o próprio jornal apoiava poucos dias antes, virou o símbolo máximo da luta contra a opressão policial e validou as manifestações. O jornalista Pedro Ribeiro Nogueira virou um mártir ao ser espancado por vários policiais ao tentar ajudar alguns manifestantes, como divulgado em um vídeo muito oportuno. O que falar de Datena, que tentara manipular a opinião pública contra os badernistas uma semana antes? Só faltou chorar ao pedir imagens dos atos pacíficos e afirmar que o povo estava indo às ruas exigir seus direitos. Arnaldo Jabor, quem diria, pediu desculpas ao povo dizendo que sim, valia a pena ir às ruas por R$ 0,20 centavos e que o brasileiro tinha muitas outras causas pelas quais gritar. As desculpas cabem lembrar nunca vieram na tela da audiência maciça da Rede Globo (onde ele havia dito impropérios para milhões de espectadores) e sim através de uma declaração mais discreta na rádio CBN.

Não é a primeira vez na história do Brasil que a opinião pública é manipulada de tal forma pela imprensa. Todo mundo já ouviu falar na campanha politica de Fernando Collor, os cara pintadas e, antes disso, do fracasso das Diretas Já!

É um erro imaginar que a imprensa cobre os eventos de forma neutra. As empresas de comunicação são, em sua maioria, parte de grupos empresariais distintos, comandados por um grupo restrito de pessoas que têm muito a perder ou ganhar de acordo com o que acontece na política do país, algumas delas inclusive apoiaram os governos extremistas dos anos da Ditadura Militar e se beneficiaram muito com isso assim como com todo o descontentamento da população que foi resumido pela imprensa como a luta contra a corrupção e é claro que querem que pensemos que a corrupção é restrita ao partido X ou Y transformando toda essa gente  nas ruas em uma massa de manobra política. Enquanto isso a multidão segue caminhando e cantando, enrolada em bandeiras, com suas caras pintadas  sorrindo para as fotos com seus cartazes, orgulhosa por deixar sair a voz que há tanto ansiava por ser ouvida, segue com seus confortáveis compartilhamentos e RT’s lá do sofá de sua casa, afinal de contas a manifestação coxinha feita só pelas redes sociais também teve imenso valor no “despertar” do povo brasileiro. E continuamos como um gigante sonolento, que sonha em acordar mas o peso da falta de informação  ainda o segura deitado em seu berço esplêndido, sempre vigiado de perto pelo Grande Irmão que zela por todos nós.

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V de Vingança , HQ escrita por Alan Moore foi inspirada em 1984.

As máscaras de Guy Fawkes têm presença garantida nos protestos.

(Texto de Marcela Faysal)

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